quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

"18 de janeiro de 1934"

Nos passeios com o meu saudoso pai, falávamos de coisas várias, como um pai fala com o seu filho. Mas um tema havia sempre: a identidade da nossa existência; o respeito pelo povo ao qual pertencíamos; os avanços e recuos na nossa vida; as nossas lutas. Também foi assim que me tornei no que hoje sou. Contou-me uma história, que repetia recorrentemente. Quando ele era pequeno, acompanhava o seu pai nas lides com o carro puxado pelas vacas. O meu avó fazia do aguilhão guitarra e cantava um fado, escrito na altura do encerramento do Sindicato, por um dos revolucionários envolvidos, Júlio Marques (meu tio-avô), que dizia mais ou menos assim:

E nunca desanimai
Que um castelo também cai
À vingança hão-de chegar.
Lacraram a nossa mãe
Que tantos filhinhos tem
Que se andam a abraçar.

A ferros quatro lá estão
Sem se saber a razão
No Aljube estão internados.
Encerrem no coração
Que é a firma Roldão
Que de tudo são culpados.

Quando a roda desandar
Terão de se aguentar
Esses homens de galões.
Que longe de concordarem
Que há fome em tantos lares
Se venderam aos patrões.

A nossa solidariedade
É um gesto de humanidade
Que bonito que é a união.
Que do pouco que ganhamos
Com todo o gosto pagamos
Para os camaradas sem pão.

Nós temos de triunfar
Nada de desanimar
Nunca deixar a trincheira.
Nas fábricas tocam apitos
Operários bradam aos gritos
Avante massa vidreira!


 
Em 1 de Janeiro de 1934 entra em vigor o Estatuto do Trabalho Nacional que tinha por modelo a “Carta del Lavoro” de Mussolini e decretava a ilegalização dos sindicatos livres. A classe operária reage de imediato. A apelo das organizações sindicais, no dia 18 de Janeiro de 1934 desenvolve-se no país uma greve de características insurreccionais. Em Silves, em Coimbra e nas zonas operárias de Lisboa, no Barreiro e em Setúbal registam-se acções grevistas e manifestações. Mas é na Marinha Grande que a greve alcança maiores proporções. A greve, encabeçada por militantes comunistas (José Gregório, António Guerra e outros), teve a adesão maciça dos trabalhadores, que ocuparam a vila durante várias horas. Depois, de Leiria, chegaram as forças da repressão ...

4 comentários:

Alfredo Poeiras disse...

É por tudo isto que eu tenho um enorme orgulho em ser vidreiro, e ter dentro das minhas limitações tentado manter viva a memória do 18 de Janeiro de 1934.
Viva o 18 de janeiro

Grizalheiro disse...

Alfredo Poeiras: digno Embaixador da arte do vidro!
Tenho orgulho em seres meu amigo!!

Júlio Baridó disse...

Ai que falta fazem Homens com ideais, principios e valores de outros tempos... um abraço Tojeira

Júlio Baridó

Anónimo disse...

O 18 Janeiro continua a ser um marco na luta da classe operária portuguesa! Ontem como hoje é aos comunistas que compete levantarem bem alto a bandeira dos oprimidos!

Um grande abraço para ti Paulo.

José Bandeira